Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Escritores

Mais uma vez ponho a mão na consciência. Trabalho muito, tenho um milhão de afazeres e obrigações diárias de cidadão e ainda penso em escrever, penso em ritmo de verso e pontuação adequada para minha prosa. Isso mata! E é inútil. estamos no Brasil, entende? Ninguém lê aqui e eu me matando tentando dar às minhas experiências e subjetividade um toque autenticamente literário. Pra quê? Pra ninguém ler, reconhecer meu esforço, aplaudir ou mesmo repudiar acusando meus poemas e prosa de falta de qualidade literária ou me chamando de autior sem talento. Não existe nada mais inútil do que escrever, escrever no sentido mais profundo do termo, no Brasil. Além disso, tem gente demais mas escrevendo mais do que lendo. Todos querem escrever, falar de si próprios, de suas vidas - e não há ninguém para ler - não estamos em um país de leitores preocupados com a situação literária. estamos no Brasil! Mesmo a publicação não impede que um autor permaneça obscuro, sentindo infrutífero o seu esforço e também para o escritor a vida vira avida de apertador de ´parafuso onde a experiência vivida é só mais um a experiência vivida - no máximo, assunto para um encontro com amigos -, mas nunca algo que ganhe repercussão como obra. Meus amigos ainda escrevem, alguns estão para publicar, porém, seus afazeres os impedem de ler os trabalhos uns dos outros e quando lhes sobra algum tempo, escrevem e depois mandam seus escritos por e-mail uns para os outros.Para ninguém ler e ter como comentar. O melhor mesmo é largar a pena, se conformar de que se está no Brasil e que ninguém lê e quem lê não parece saber o que ou por que lê - a maioria das vezes só para ter assunto quando o papo na roda de conhecidos ficar mais culto. Mas, lembro das inúmeras tentativas que fiz de parar de escrever. Todas inúteis. Como diria Solomon, "já desisti da literatura um milhão de vezes e já voltei pra ela um milhão e uma". Dava um tempo, eu voltava e mesmo diante de toda indiferença, eu escrevia, procurava a palavra e ritmos convenientes à minha intenção, o episódio da minha vida que poderia virar prosa. Mas aqui é o Brasil, onde cultura é artigo de luxo e aclasse média - quem teoricamente a consome - não está interessada em livros. talvez não seja só aqui. Os poetas estão condenados - assim como os heróis mortos e a arte enterrada. McLuhan disse certa vez para um grupo de escritores que estava diante de um araça em extinção - ele errou. O escritor continua aqui, o que parece ter se extinguido foi o público. de qualquer maneira, escrever é inútil agora e quando me flagro pensando em versos ou períodos, penso que sou inútil, esmurro ponta de faca, faço um esforço inútil para ter o que não pode e que o melhor a fazer é mandar currículos, fazer relações influentes no mercado de trabalho e usar o papel só depois de usar a privada e acaneta só para assinar cheques e o computador só para procurar emprego. Escrever pra quê? mas naõ consigo deixar de acreditar que para o escritor a vida só vira vida a partir do momento em que ela pode também ser experiência estética e integrar sua obra - e nesse ponto, escrever seria essencial à vida. Além disso escrever não é opção - conforme já se garantiu, nasce-se escritor ou poeta por sabe-se lá que desígnio genético e que hoje em dia só constitui um incômodo para quemn possui esse "gene". Ainda mais quando se nasce no Brasil. Pobres escritores, poetas e tudo o mais! Parem de escrever - ninguém se importa com seus esforços em traduzir sentimentos, experiências em palavras, ninguém quer ou vai ler - vão trabalhar, vaõ arrumar algo útil pra fazer, larguem seus versos e contos e vão passear no parque ao sol de domingo - não há mais nada afazer. Ponho a mão na consciência, calculo o tempo que passei (melhor, desperdicei) compondo meus poemas ou revisando meus contos e me revolto com a minha estupidez - tempo que poderia ser devidamente empregado em coisas úteis e que dariam algum resultado. Acho que é o fim da linha e lembro de Kerouac que em sua auto-entrevista disse ter vindo ao mundo para escrever - infeliz! No fundo, acho que os meus amigos escritores e eu também viemos ao mundo também para escrever - e ninguém ler, nem mesmo o trabalho uns dos outros - mas só nos resta tentar parar ou, como Bortolotto certa vez me aconselhou depois de postar um poema meu em seu blog (alías, um dos raríssimos momentos em que vi meu esforço valer a pena), só se pode continuar a escrever, porque afinal não se tem mais nada a fazer. É, o que resta fazer - só tentar parar ou continuar escrevendo sem esperança disso se tornar outra coisa se não esforço na procura pela palavra certa ou da traduçaõ mais fiel de um sentimento ou experiência... Mas, eu ainda preferia entender por que não consigo parar apesar da inutilidade do ato de escrever e que, por estar no Brasil, ainda não desisti...
ponho a mão na consciência e penso. escrevo este texto e acho o ponto final... Estou cansado e não consigo parar. Amanhã trabalho estou aqui tarde da noite desabafando sobre asituação... estou aqui adiando o ponto final só pelo prazer de escrever. Escrevo e apesar de tudo pretendo continuar a escrever. Mesmo apesar da indiferença, da falta de incentivo e de estar no Brasil, pretendo continuar escrevendo e enfim, o ponto final.
(30/7/2008)

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Pobre Gabriel





com seus poemas, músicas e vida de poeta


Gabriel não tem onde dormir


ou recitar


e para ter o que comer,


esmola restos pelos restaurantes da cidade






com seus versos, papéis e vida de poeta


Gabriel não tem emprego


ou perspectiva


e para beber,


esmola copos de cerveja pelos bares da cidade






com suas mulheres iludidas, músicas e vida de poeta


Gabriel não tem público


nem aplausos






sem dinheiro, sem lugar


com suas calças quadriculadas, sapatos gastos e barba


Gabriel vaga sem rumo






procurando dentro da madrugada bêbada


qualquer coisa que faça sua vida parecer menos miserável


e sem sentido


Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Eu Fui



Riders on the Storm, espaço Anchieta, 18 de abril

Como em 2004, a apresentação foi aberta por Carmina Burana numa tentativa de emprestar grandiosidade ritual à apresentação. Então, a banda entrou - Manzarek como o maestro. Espetaram "Love me two times" logo de cara e o uivo da platéia foi de arrepiar a espinha. a voz de Bret Scallions não só lembrava a de Morrison como deve ter feito os presentes pensarem estar vivendo um flashback. Krieger preciso em um solo sem registro em disco. Em "Break on through", Scallions teve a oportunidade de demonstrar porque ocupava o lugar que um dia foi de Morrison - tinha a silhueta, postura e performance que fizeram do rei lagarto a figura carismática e marcante que foi. O jogo de vozes no trecho "she gets higher" lembrou o diálogo que Morrison e Manzarek desempenhavam nos shows nos anos 60. Em "When the music's over", o mérito veio da iniciativa de improvisar e do virtuosismo de Krieger. O repertório seguiu com "Piece Frog", "Whisky Bar" (com adesão total do público) e após uma demonstração de técnica flamenca por parte de Krieger, "Spanish Caravan - númeroque deu à música, quase desconhecida, uma força imensa. Scallions cantava idêntico à Morrison, a voz com o mesmo apelo, tocando meia-lua, brincando com o microfone,vestindo couro (inclusive adotando uma jaqueta em determinada altura do show), mas ficava a impressão de uma marionete, manipulada como front man para substituir alguém que fisicamente ou como performer pode ser substituído, mas cuja maior virtude artística não podia - a capacidade de improvisação e o magnetismo. Krieger e Manzarek exibiram a técnica que os fez famosos nos discos, mas Manzarek tentava a todo momento ocupar a posição de destaque, fosse como porta-voz ou como objeto de homenagens dos outros integrantes. Como o dono do The Doors. Mas sempre parecendo o regente de uma orquestra deslocada no tempo e com cara de entretenimento barato.

O último número, como não poderia de ser, foi "Light my Fire", anunciada por Manzarek como "escrita por Robby Krieger". Talvez a música mais famosa da banda, seu solo ggantesco permitia e permitiu aos músicos exibirem habilidade em seus instrumentos e até um intercurso pelo samba com todos os integrantes tocando percussão e Krieger tentando acompanhar na guitarra distorcida. O público vibrou, alguns pareciam estar realmente se sentindo nos anos 60, a banda estava afiada, mas não me senti satisfeito... Uma impressão que depois minha namorada descreveria como "todos podem ficar velhos, mas quem faz o papel de Jim Morrison sempre deve ser jovem" fez com que eu me perguntasse até quando Manzarek e Krieger vão arrastar essa farsa? Ou melhor, até quando o mito Morrison vai sustentar carreiras?

Sábado, 9 de Maio de 2009

Outro Dia


VIVO UMA CRISE

Vivo uma crise um tanto quanto assustado
Dizem que é assim, que não tem nada errado
Mas se é assim o que me sobra?
Não posso pagar o que a vida me cobra.

Nem todas as noites, nem todas as drogas
Me ajudam a entender como é que se joga
Preciso de algo pra ocupar a cabeça
Até que isto enfim desapareça

Vivo uma crise
Já não sinto fome, dor ou medo
Quero de volta o que nunca tive
e isto não é mais nenhum segredo
Vivo um crise

O almoço é frio, o café gelado
Meço o tempo pelos maços de cigarro
Não aguento mais remédio nem terapia
Toda noite parece meu último dia

A luz me ofusca, o escuro me agride
Estou na mesma, vivo uma crise

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

LATENTE


DEPOIMENTO

Estou só e cansado demais pra pensar, cansado demais pra dormir,
Tentando entender por que me sinto assim,
querendo tudo o que não posso ter
sentindo nada a não ser ausência de prazer
estou só - cansado de me sentir cansado, cansado de não conseguir descanso
estou só - eu e a solidão dividindo a cama
outra noite encenando o mesmo drama – continuo aqui, a noite passa e eu não consigo dormir
vivendo morrendo tentando existir
vivendo e morrendo vivo à procura de motivo
pra estar aqui
e apesar de tanto cansaço
não desisto da busca
insisto resisto existo não desisto
e nem minha falta de medo me assusta
se a vida é guerra, eu quero paz
se a vida é trégua, eu quero luta
e nada mais me resta, nada mais me interessa
só a vida - e se a vida existe será que alguém me empresta?
e nada mais me resta, nada me interessa –
a vida passa eu tenho pressa
quero procurar na carne e na pele
até que a vida enfim se revele
quero procurar mesmo suspeitando que a vida
vai estar sempre em outro lugar.

Sábado, 18 de Abril de 2009

He wanted more than he could steal


Dia 8 fez 15 anos da morte de Kurt Cobain. Quem lembrou pode não ter se importado - afinal, ele foi só um roqueiro viciado em drogas e morto precocemente (com 27 anos). Eu lembrei e não só me importei como até elaborei esta humilde homenagem ao vocalista e guitarrista do Nirvana. Deve fazer uns 10 anos que tive o primeiro contato com o som da banda (e nem foi com Nevermind) e tive uma fase de ouvir só Nirvana, aprendi a tocar uma pá de sons deles (embora a maioria de uma forma quase irreconhecível) e olhando o panorama musical de hoje, sinto que a última grande banda foi o Nirvana e Kurt o "último grande herói" do rock. A música dele lembrava exorcismo, confronto direto com a dor (não só com a dele, mas de todo ser humano). Do timbre à entonação, a voz de Cobain sugeria uma discussão com demônios íntimos, seus versos remetiam a experiências pessoais mas universais em essência e apesar da linguagem cifrada da maior parte das letras, o riff ou a melodia comunicavam o sentido delas. Enfim, canções destinadas a não serem esquecidas desde que suas verdades tenham sido uma vez apreendidas. E talvez por isso eu ainda ouça smells like teen spirit e lithium e pennyroyal tea e heart-shaped box ainda me chamem a atenção e ainda sinta um frio na espinha ouvindo you know you're right e all apologies. Além disso, mais do que lembrar minha adolescência, estas músicas falam de coisas com as quais ainda me identifico...

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

LISTO


procuro

quando muito perco

tento

procuro abrigo teto

céu onde exercitar as asas

reviver lembranças

que o presente ainda não enterrou



a intensidade de uma rua coberta

de azulejos fluorescentes

e céus salpicados de lábios femininos



não há saída

nem chance de libertação.

plantei cruzes

nas calçadas

no altar

calço os tênis vago ando

repito os passos dos meus pais

negocio tristezas com os outros passageiros deste ônibus

desgovernado chamado Vida.


meus heróis estão mortos e enterrados

se suicidaram cometeram suicídio

ou morreram de tédio

e foram esquecidos

pelo País Sem Memória



os versos dos meus amigos vão embolorando

no fundo da gaveta

junto com os livros

dos nossos

heróis decadentes


e o que sobra vegeta

mergulha num triste pântano vegetal

esperando que um sorriso opaco

devolva aos sonhos

o brilho original.


mas se nossos olhos anoiteceram

sob as fachadas encardidas

de fuligem

nosso coração ainda vibra

ao som daquelas músicas que

sustentaram nossos delírios

e nossas bocas ainda ecoam

a

luz primordial

(pela qual continuamos

sedentos

ansiosos

viciados)